Manchester United: por que o clube erra tanto ao escolher técnicos desde Ferguson?
Quarenta anos depois da chegada de Sir Alex Ferguson, o Manchester United ainda não encontrou um sucessor. Entenda os erros de escolha de Moyes a Amorim e o que eles revelam sobre o clube.
Contexto e importância
Nesta semana, o Manchester United completa 40 anos da contratação de Sir Alex Ferguson. O escocês chegou a Old Trafford em 6 de novembro de 1986, vindo do Aberdeen.
A data serve de lembrete incômodo. Segundo a análise publicada pela ESPN, aquela foi a última vez que o clube acertou de verdade na escolha de um treinador.
Desde a aposentadoria de Ferguson, em 2013, o United vive um ciclo de apostas, demissões e recomeços. A pergunta que todo torcedor faz é simples: por que um dos clubes mais ricos do mundo não consegue acertar?
Quarenta anos depois, a sombra de Ferguson ainda é maior do que qualquer nome que tentou ocupar o banco de Old Trafford.
O que aconteceu
Ferguson deixou o cargo ao fim da temporada 2012-13, campeão inglês. Indicou o compatriota David Moyes, que assinou contrato de seis anos e não completou nem a primeira temporada.
Depois vieram Louis van Gaal, José Mourinho, Ole Gunnar Solskjaer, Erik ten Hag e Rúben Amorim. Entre eles, interinos como Ryan Giggs, Michael Carrick, Ralf Rangnick e Ruud van Nistelrooy seguraram a casa em momentos de crise.
Amorim saiu em janeiro de 2026, pouco mais de um ano após chegar do Sporting. O nome de Carrick, ídolo da era Ferguson, voltou ao centro da conversa sobre o comando do time.
Desde 2013, o United efetivou seis treinadores diferentes. Nenhum chegou perto de conquistar a Premier League.
Impacto no clube
O principal problema não é cada nome isolado. É a falta de coerência entre eles. O clube pulou de um técnico de continuidade para um teórico do jogo de posse, depois para um vencedor pragmático, depois para um ídolo da casa.
Cada mudança trouxe novas contratações para servir a um novo modelo. O resultado foi um elenco caro, montado em camadas, com jogadores pedidos por técnicos que já não estavam mais lá.
Esse efeito acumulado explica por que o United passou a viver de recomeços. A cada demissão, o projeto volta à estaca zero, e o abismo para Manchester City, Liverpool e Arsenal cresce.
Trocar de perfil a cada contratação transforma o elenco num quebra-cabeça de peças que não se encaixam.
Reação do mundo do futebol
A imprensa inglesa trata o tema como uma ferida aberta. A análise da ESPN resume o sentimento de muitos: o United perdeu o método de escolher técnicos junto com o próprio Ferguson.
Entre torcedores, a frustração se divide. Parte culpa os treinadores, parte culpa a gestão da família Glazer, dona do clube desde 2005, e parte cobra a estrutura comandada por Sir Jim Ratcliffe e a Ineos, que assumiram o futebol em 2024.
No Brasil, onde o United tem muitos simpatizantes, o caso virou exemplo recorrente de como dinheiro sozinho não compra direção. A comparação com clubes que mantêm uma ideia por anos é inevitável.
Histórico relevante
É bom lembrar que Ferguson também começou mal. Ele levou mais de três anos para ganhar o primeiro título, a FA Cup de 1990, e o primeiro campeonato inglês só veio em 1992-93.
O clube teve paciência porque havia uma visão de longo prazo. Ferguson reconstruiu as categorias de base, formou a geração de Giggs, Beckham, Scholes e os irmãos Neville, e controlava praticamente todo o departamento de futebol.
Esse modelo centralizado funcionou por 26 anos, mas deixou um vazio. Quando ele saiu, o clube não tinha estrutura de direção esportiva capaz de escolher e sustentar um sucessor.
Antes de Old Trafford, Ferguson venceu a Recopa Europeia de 1983 com o Aberdeen, batendo o Real Madrid na final.
Números e estatísticas
A era Ferguson é medida em números que parecem de outro planeta. Foram 13 títulos da Premier League e duas Champions League, em 1999 e 2008, além de cinco FA Cups.
Depois dele, o United conquistou taças importantes, mas pontuais: FA Cup em 2016 e 2024, Copa da Liga em 2017 e 2023 e a Europa League de 2017, com Mourinho.
O retrato mais duro veio em 2024-25. O time terminou a Premier League em 15º lugar, sua pior campanha desde o rebaixamento de 1973-74, e ainda perdeu a final da Europa League para o Tottenham.
O que vem pela frente
O próximo passo do United depende menos do nome do treinador e mais da estrutura em volta dele. A gestão de Ratcliffe prometeu um modelo com diretores esportivos fortes e decisões integradas.
Na prática, isso significa escolher um técnico que se encaixe numa ideia de jogo definida pelo clube, e não o contrário. É exatamente o que faltou desde 2013.
O torcedor quer ver paciência e coerência. Sem isso, o próximo comandante corre o risco de virar apenas mais um capítulo de uma lista que já é longa demais.
Michael Carrick, citado na análise da ESPN, foi campeão europeu como jogador de Ferguson em 2008.
Opinião do especialista
O erro do United não é contratar técnicos ruins. Van Gaal, Mourinho e Ten Hag chegaram com currículo vencedor. O erro é contratar sem saber o que se quer.
Ferguson era técnico, diretor e guardião da cultura ao mesmo tempo. O clube tentou substituir um homem que fazia tudo por treinadores que só podiam fazer uma parte.
Enquanto o United não definir sua identidade antes de escolher o nome, vai continuar trocando de rumo a cada crise.
O Manchester United não precisa de um novo Ferguson. Precisa de um clube que pense como Ferguson pensava: com paciência, visão de longo prazo e uma ideia clara do que quer ser em campo. Sem isso, qualquer técnico entra em Old Trafford com prazo de validade.